Quinta-feira, 30 de Abril de 2015

Blur - The Magic Whip

Colocado à venda no ultimo dia vite e sete de abril, depois de um inesperado anúncio há algumas semanas, através de uma conferência conferência de imprensa transmitida em streaming a partir de um restaurante chinês em Londres, onde a banda aproveitou também para anunciar um grande concerto para o Hyde Park, na capital britânica, no dia 20 de Junho, The Magic Whip é o primeiro álbum dos britânicos Blur de Graham Coxon, Damon Albarn, Alex James e Dave Rowntree, desde o extraordinário Think Thank de 2003 e o tão badalado regresso à ribalta de uma banda fundamental da música ocidental das últimas três décadas, liderada pelo melancólico, mas sempre genial, brilhante, inventivo e criativo Damon Albarn, personagem central da cultura pop britânica contemporânea. O início embrionário deste disco materializou-se em quinze jams de vinte minutos, gravadas em 2013 em Hong-Kong, de modo quase casual, já que a banda tinha viajado para essa cidade para tocar no Festival Toky Tocks Music, um concerto à última da hora cancelado. Os quatro músicos vêem-se presos nessa cidade e resolvem usar os cinco dias programados para a estadia para entrar nos estúdios Avon e ensaiar, escrever e gravar, tendo nascido assim o bruto deste The Magic Whip. As letras são escritas por Albarn, um pouco mais tarde, depois do Natal desse ano, durante uma estadia de duas semanas na sua casa na Islândia.

Simbolos maiores da britpop e protagonistas de um mano a mano curioso com os Oasis dos irmãos Gallagher, os Blur tiveram uma década de noventa e uma entrada no novo milénio verdadeiramente estonteantes com sete discos que abraçaram diferentes subgéneros sonoros, mas sempre com a pop como referência primordial de um som muito caraterístico, que de Bowie aos Kins, passando por Syd Barrett ou os míticos XTC, era criado geralmente à sombra da genialidade da guitarra ríspida e simples de Coxon e do modo como Albarn escrevia e cantava sobre uma Inglaterra pós Tatcher, fortemente industrializada, mas também com uma pacatez rural muito típica, rica e sobranceira, fazendo-o transbordando modernidade e uma sensação de quotidiano e normalidade ímpares. De facto, era fácil para qualquer britânico sentir-se identificado com as canções dos Blur, como se qualquer um pudesse vestir a pele daqueles músicos, que satirizavam constantemente um mundo tão mecanizado e rotineiro e que, como hoje ainda sucede, tantas vezes, atrofia, de algum modo, a predominância dos desejos e necessidades de cada um de nós, em detrimento do bem e da vontade comuns.

Tanto frenesim, principalmente após The Great Escape, acabou por mostrar no horizonte um esgotamento da fórmula até então bem sucedida, com o outro lado do atlântico a surgir como uma terra de novas oportunidades para o grupo, sendo o homónimo Blur (1997) a seta lançada para uma América a viver a ressaca do movimento grunge e particularmente curiosa em relação a este quarteto. Este trabalho acaba por ser decisivo no historial da banda já que, se por um lado marca uma ruptura no som típico dos Blur, ampliado agora com uma maior sujidade e uma aúrea mais sombria e experimental, reforçada com uma superior importância da eletrónica dois anos depois em 13 e a procura de influências de outras latitudes, causadas por um Albarn curioso, estudioso e particularmente apaixonado pelos sons nativos da costa ocidental africana em Think Tank, por outro houve uma deterioração das relações pessoais no seio da banda e, em particular, os seus dois maiores egos, com Coxon a não ter já intervenção decisiva no conteúdo deste último trabalho.

Mas a que se deve a necessidade de referir, ainda que de modo sucinto, a história e a cronologia dos Blur, quando o que está em causa neste artigo é uma análise crítica, por parte do autor deste texto, ao conteúdo de The Magic Whip? Na verdade, e na minha modesta opinião, penso que uma abordagem honesta às doze canções deste trabalho só fica completa com esta contextualização anterior porque, pessoalmente, considero que este é, ao mesmo tempo, um disco de síntese de uma carreira e um trabalho de recomeço, onde os Blur plasmam, de certo modo, todo o tal referencial sonoro identitário que os influenciou, quer na fase inicial, quer no período mais conturbado, na passagem para o século XXI e que originou este hiato de doze anos, além de lançarem algumas sementes interessantes para um futuro discográfico que espero que se concretize.

De facto, se a guitarra inebriante e o baixo vigoroso de Lonesome Street e a postura vocal de praticamente toda a banda nesse tema parecem ter viajado diretamente das profundezas mais inspiradas de Modern Life Is Rubbish (1993), já o piano esquecido e a voz em overdub de New World Towers ou a máquina de ritmos, a viola e o riff eletrónico vintage de Ice Cream Man oferecem-nos esta aúrea de novidade, certamente projetada pelo Albarn construtor de Everyday Robots, que com um pé na folk e outro na pop e com a mente a sempre a convergir para a soul, entrega-se à introspeção e reflete sobre o mundo moderno, não poupando na materialização dos melhores atributos que guarda na sua bagagem sonora, confirmando, mais uma vez, o seu forte cariz eclético e heterogéneo e a capacidade de liderança suficiente para juntar em seu redor os restantes músicos.

O disco prossegue com mais um salto na reta numérica que define a cronologia discográfica dos Blur, para espreitarmos agora o tal período mais sombrio e experimental, à boleia do swing anguloso da guitarra porosa e distorcida de Go Out e do reverb alienígena de Thought I Was A Spaceman, que só se clarifica e vê a luz plena com a entrada da bateria já na segunda metade do tema. Entretanto, My Terracota Heart traz a lume o tempero africano que tanto seduz Albarn e a imponência orquestral de There Are Too Many Of Us remete-nos, uma vez mais, para o seu trabalho a solo, desta vez no que diz respeito a algumas bandas sonoras em que se envolveu.

Até ao final de um disco assombroso, pré-fabricado, como já referi, em cinco dias na tal Hong-Kong situada na Ásia que frequentemente chama por Albarn, como se percebe, por exemplo, nos Gorillaz, não podemos deixar de nos deslumbrar com a pop soalheira e plena de soul de Ghost Ship e, principalmente, à boleia desse apelo oriental, com Pyongyang, o meu tema preferido de The Magic Whip. Em 2013 foi concedida a Albarn licença para visitar a Coreia do Norte, onde permaneceu durante algumas semanas, tendo visitado a capital, que dá nome a este tema e outras zonas remotas do país. A lindíssima e majestosa melodia de Pyongyang é um reflexo dessa visita, o retrato de um povo que, de acordo com o músico, está cheio de pessoas boas, inteligentes, corajosas, sensíveis e sonhadoras, como qualquer comum ocidental, só que parece viver numa espécie de mundo enfeitiçado, num local mágico, que foi em tempos coberto por um manto invisível que transformou as fronteiras do país numa prisão gigante e com um poderoso efeito narcótico sobre a população.

Impecavelmente produzido por Stephen Street, The Magic Whip é, portanto, uma esplendorosa amálgama de todo o referencial identitário de um quarteto, que da britpop, ao experimentalismo ruidoso, passando pela eletrónica e pelo fascínio do lo-fi, criou canções que fazem parte do imaginário sonoro da civilização ocidental contemporânea. Em 2015 os Blur oferecem-nos uma ode nostálgica a toda a sua herança, mas também mostram estar familiarizados com as tendências mais atuais, sugerindo uma visão muito prória e claramente identificada com o adn identitário do quarteto, da pop e do indie rock atuais. Em suma, apresentam-se fortemente criativos, generosos e com vontade de continuarem a serem considerados uma referência obrigatória. Espero que aprecies a sugestão...

Blur - The Magic Whip

01. Lonesome Street
02. New World Towers
03. Go Out
04. Ice Cream Man
05. Thought I Was A Spaceman
06. I Broadcast
07. My Terracotta Heart
08. There Are Too Many Of Us
09. Ghost Ship
10. Pyongyang
11. Ong Ong
12. Mirrorball


autor stipe07 às 19:13
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Tame Impala – Disciples

Os Tame Impala de Kevin Parker acabam de divulgar Disciples, mais um avanço para Currents, o sucessor de Lonerism, um novo trabalho do grupo australiano, que vai ver a luz do dia ainda em 2015.

O sentimento de mudança é cada vez mais explícito neste projeto. Se a longa Let It Happen apresentou-nos uns Tame Impala menos dependentes das guitarras e a chamarem os sintetizadores para plano de maior destaque, mas sem deixarem de lado a sua típica groove viajante e se ‘Cause I’m A Man oferecia-nos um R&B empoeirado, a animada Disciples mantém a temática de revisão da psicadelia que busca pontos de encontro com o rock clássico, proposto há mais de quatro décadas por gigantes que se entregaram ao flutuar sonoro da lisergia, mas numa toada mais pop e acessível, com as guitarras a serem cercadas por um sintetizador inspirado e fortemente aditivo. Confere...


autor stipe07 às 15:03
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Quarta-feira, 29 de Abril de 2015

Alabama Shakes - Sound & Color

Escuta-se frequentemente que já não se faz música como antigamente ou que o rock não é mais o mesmo e todos os grupos parecem-se demasiado uns com os outros. Além disso, as gerações que criticam esta suposto atual estado de coisas, visão com a qual discordo, têm sempre uma enorme relutância e um certo preconceito no que concerne às tais novidades que muitas publicações por esse mundo fora procuram transmitir ao grande público, e nas quais naturalmente Man On The Moon humildemente se insere. Seja como for, os norte americanos Alabama Shakes felizmente cá estão, e pela segunda vez, para contrariar as vozes mais pessismistas com Sound & Color, o novo álbum deste grupo de Alabama liderado pela já carismática Brittany Howard e onde rock, funk, soul e blues coexistem em harmonia, influenciando-se mútua e constantemente, sem apelos, perdões ou qualquer agravo.

Dos The Temptations e de Sly and The Family Stone e Otis Redding, ao melhor da motown, passando pela guitarra de Hendrix, está cá tudo o que de melhor a música negra norte americana produziu no último meio século e numa dose qualitativa e abrangente indubitavelmente superior ao cardápio de Boys & Girls, o primeiro disco. Do blues com pitadas de soul de Dunes, à tristeza soul de Guess Who, ou o hardcore de The Greatest, este álbum oferece-nos um verdadeiro passeio por incontáveis décadas, influências e tendências musicais, que apontam para diversas direções e acertam em todas.

Gravado em Nashville, Sound & Color foi produzido pelo reputado jovem Blake Mills, que fez um excelente trabalho, com especial destaque para o modo como ampliou e deu maior vida e autenticidade à guitarra de Heath Fogg, outro dos grandes trunfos destes Alabama Shakes. Canções como a espantosa e épica Gimme All Your Love, o melhor momento do disco, ou o fuzz de Future People, são extraordinários exemplos deste posicionamento mais deslumbrante, seguro e assertivo das cordas, enquanto passeiam pelos diferentes subgéneros sonoros acima referidos. Esta luz constante, esta soul que viaja entre pólos sentimentais opostos num ápice através de um simples dedilhar ou de um toque no pedal e no botão certos, este, em suma e sobretudo, sensual posicionamento do instrumento de Fogg ao longo do alinhamento, que na introspetiva e acústica This Feeling nos arrepia e sacode bem cá no íntimo, nunca perde sentido e fluídez, deixa espaço para que o piano ou a bateria também se mostrem e convence decisivamente pelo modo como a voz de Brittany encaixa com incrível naturalidade nas melodias, numa quimíca que entre silêncio, raiva, dor e calma, cria um som que entre o mestiço e o mitológico, é de difícil catalogação.

O rock está vivo e por este dias passeia confiante e altivo à boleia dos Alabama Shakes, num feliz encontro de décadas e referências musicais, que tendo uma natural toada nostálgica, mas acolhedora, acaba por ser o que de melhor e mais genuíno e novo este género musical tem para oferecer atualmente. Os sons empoeirados vindos de um passado longínquo que se ouvem em The Greatest, ou a ode à melhor herança dos Rolling Stones que sustenta Shoegaze, por exemplo, talvez não sejam mais do que algumas das melhores pistas para o futuro próximo da música contemporânea, oferecidas por um disco sobre o amor e a espiritualidade e que, fisicamente, encarna algumas das melhores sensações que estas duas permissas nos oferecem. Espero que aprecies a sugestão...

Alabama Shakes - Sound And Color

01. Sound And Color
02. Don’t Wanna Fight
03. Dunes
04. Future People
05. Gimme All Your Love
06. This Feeling
07. Guess Who
08. The Greatest
09. Shoegaze
10. Miss You
11. Gemini
12. Over My Head


autor stipe07 às 22:42
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Surfin' Mutants Pizza Party - Brain Avenue

Apesar de vir do frio Quebec canadiano, Julien Maltais, um jovem de apenas vinte e um anos, tem no sangue o calor do punk rock californiano. Ele é o líder e grande mentor do projeto Surfin' Mutants Pizza Party, que criou depois de ter liderado várias bandas de metal sem grande sucesso e ter decidido sozinho, no seu quarto, começar a criar música.

Julien vai-se estrear nos lançamentos discográficos a dezanove de maio com The Death of Cool, um trabalho que vai ver a luz do dia a dezanove de maio, em formato digital e cassete, através da insuspeita e espetacular editora, Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

Brain Avenue, um single disponivel para download gratuito, é o primeiro avanço divulgado de The Death Of Cool e pela amostra, percebe-se que do surf punk, ao skateboarding, passando pela banda desenhada e a ficção científica, são várias as fontes de inspiração de um músico que cria uma colorida estética sonora, onde o vintage e o contemporâneo se misturam com particular acerto. Confere...


autor stipe07 às 13:04
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Terça-feira, 28 de Abril de 2015

Van Dale - Van Dale

Foi no passado dia trinta e um de março que chegou aos escaparates em formato digital e cassete Van Dale, o espetacular novo disco dos Van Dale, um trabalho homónimo de um trio norte americano oriundo de Columbus, no Ohio, que inclui no alinhamento dos membros dos já consagrados Way Yes e uma das novas grandes apostas da insuspeita e espetacular editora Fleeting Youth Records, uma etiqueta essencial para os amantes do rock e do punk, sedeada em Austin, no Texas.

Em nove canções cheias de energia, os Van Dale ressuscitam alguns dos melhores detalhes do grunge e do rock alternativo dos anos noventa, com as distorções de Peacefully e o efeito da guitarra e as transições de volume e ritmo de Bed Of Bricks a trazerem-nos à memória aquelas tardes de domingo ou de gazeta semanal, em que era rei quem tinha uma Yamaha DT 500 ou um par de Dr Martens e nos ouvidos um Walkman com cassetes pirateadas com gravações dos Nirvana, dos Pearl Jam ou dos Soundgarden.

Estes Van Dale vão diretos ao assunto, não perdem tempo com arranjos desnecessários, mas, nem por isso, deixam de ter um apreciável sentido estético e uma veia experimental apreciável que, por exemplo, em What It's All About pisca o olho ao rock progressivo e em I Got Money tem um certo travo ao surf rock, com uma roupagem mais eletrificada e rugosa. Mas seja qual for a abordagem, tematicamente, os problemas típicos da juventude dominam a componente lírica e há uma cuidada mistura da voz com as letras e os arranjos das melodias, o que faz com que o próprio som da banda ganhe em harmonia e delicadeza o que podia ver colocado em causa devido ao grau de distorção das guitarras, quase sempre no red line. Speak Yellow é um claro exemplo do sucesso obtido na busca deste difícil equilíbrio e, mesmo nos temas em que os Van Dale procuram ser melodicamente mais incisivos, como na curiosa e recomendável balada Travis e na épica e sentimental Awalking Home, a constante sensação de recrodação daquelas cassetes antigas que temos lá em casa, empoeiradas, cheias de gravações caseiras e lo fi, do que ouvíamos à cerca de vinte a vinte e cinco anos, nunca é colocada em causa.

Nostálgicos e com o louvável intuíto de nos fazerem regressar ao passado com canções caseiras a navegarem numa espécie de meio termos entre o rock clássico, o grunge,  punk rock e a psicadelia, os Van Dale entregam-nos neste homónimo, de mão beijada e em todo o seu esplendor a sua visão atual do que realmente foi o rock alternativo, as guitarras barulhentas e os sons melancólicos do início dos anos noventa, assim como todo o clima sentimental dessa época e as letras consistentes, que confortavam e destruiam o coração num mesmo verso. E o grande brilho deste disco é, ao ouvi-lo, ter-se a perceção das bandas que foram usadas como inspiração, não como plágio, mas em forma de homenagem. Uma homenagem tão bem feita que apreciá-la é tão gratificante como ouvir uma inovação musical da semana passada. Espero que aprecies a sugestão... 


autor stipe07 às 18:11
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The Vaccines - Minimal Affection

Os londrinos The Vaccines de Justin Young, Arni Arnason, Freddie Cowan (irmão de Tom Cowan dos The Horrors) e Pete Robertson, estão a cerca de um mês de editar English Graffiti, o terceiro disco de originais da banda e depois de Handsome e Dream Lover deram a conhecer mais um single do disco.

Produzida por Cole M. Greif-Neil, a canção intitula-se Minimal Affection e encarna um indie rock exuberante e irresistível que assenta em batidas sintéticas que se escutam em sintonia com riffs de guitarra melódicos e uma voz poderosa. O tema também impressiona pela imagética criada para o ilustrar, com cenas de uma aventura espacial com uma estética retro, numa temática que gira em torno da dificuldade que as gerações mais novas têm de se relacionar pessoalmente por estarem tão dependentes das novas tecnologias. Confere...


autor stipe07 às 17:28
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Segunda-feira, 27 de Abril de 2015

The Great Dictators – Killers

Depois de Liars, disco editado na primavera de 2014, os dinamarqueses The Great Dictators, um coletivo natural de Copenhaga formado por Dragut Lugalzagosi, Jakob Lundorff e Mikkel Balle e que também conta ao vivo com Asker Bjørk, Christoffer Hein e Christian Ki, estão de regresso um ano depois com Killers, disco editado a treze de abril pela Royal Toad Records e o segundo trabalho de uma banda sustentada pela habitual melancolia que só os grupos escandinavos sabem transmitir e dona de um som épico e eloquente, mas que exige dedicação.

Killers prossegue a demanda sonora épica de Liars, com os The Great Dictators a manterem a firme aposta numa mistura de indie pop e indie rock com  o punk e o post rock e sem descurar também alguns detalhes da eletrónica, em canções que muitas vezes crescem em emoção, arrojo e amplitude sonora, sempre de forma progressiva, algo que temas como a épica We Don't Have Sound, um apelo sentido aos nossos sentidos para que se mantenham sempre atentos aquilo que a vida e a natureza têm para nos oferecer diariamente e que a pressa, o medo ou o simples desconforto, não deixam que ouçamos, ou Baby Skull Ring, uma lindíssima balada sobre os dois lados que possui o imenso poder do amor, claramente comprovam.

O baixo vigoroso e a voz empolgante de Strange Ways, o primeiro single retirado de Killers e animado por um curioso video onde surge Vladimir Putin e Dragut, o cantor e lider dos The Great Dictators, são já imagens de marca deste projeto, mas o banjo, a harpa, o bandolim o acordeão, o trompete e, principalmente, o piano, são outros instrumentos com várias aparições ao longo do alinhamento e que contribuem decisivamente para a sonoridade geral que estabelece firmemente uma zona de conforto que reside num universo algo sombrio e fortemente entalhado numa forte teia emocional amargurada. O protagonismo do piano é mesmo um dos mais bonitos e interessantes trunfos de Killers, sendo mesmo o condutor melódico por excelência de algumas canções, nomeadamente Rockets, In The Name Of The Father e We Will Survive, esta última um hino à vida e à necessidade de sermos felizes junto de alguém, chegando até a ser comovente o modo como nestas canções as teclas brancas e pretas se abraçam com o trompete para nos arrastar sem dó nem piedade para o profundo universo emocional que conforta estes The Great Dictators.

Tendo como pano de fundo, como já referi, o rock alternativo e o punk mais sombrio dos anos oitenta, verdadeiros faróis do processo de criação e duas bitolas na quais estes dinamarqueses se enredaram, lirica e sonoramente, é com naturalidade que se confere em Killers boas letras e belíssimos arranjos, assentes no tal baixo vibrante, na voz grave de Dragut e adornado por uma guitarra jovial e pulsante e com alguns efeitos e detalhes que carimbam uma certa ideia de maturidade de um coletivo que parece caminhar confortavelmente por cenários que descrevem dores pessoais e escombros sociais, com uma toada simultaneamente épica e aberta, fazendo-o demonstrando a capacidade eclética de compôr, em simultâneo, temas com um elevado teor introspetivo (In The Name Of The Father) e verdadeiros hinos de estádio (Strange Ways).

Para ser devidamente apreciada e entendida, a música destes The Great Dictators exige pulso firme e dedicação extrema, sem sacrifício e com disponibilidade total para se aceitar fazer concessões de modo a deixar que o poderoso edifício sentimental que a sustenta nos possa cobrir de fé e crença num amanhã melhor e diferente. Se houver essa abertura de espírito, eles fazem o resto porque será involuntário o erguer do queixo e o esboçar do nosso melhor sorriso no final da audição do disco. O amor, sempre o amor, está lá e a teia simultaneamente amargurada e esperançosa com que ele nos envolve todos os dias em que a chama se mantém acesa, claramente explícita em letras que tanto falam dos nossos maiores receios e fantasmas (We Will Survive), como nos ensinam a usufruir na plenitude do melhor sentimento que podemos albergar no nosso coração (Heathens).

Mesmo com cantos escuros e alguns buracos negros, que apenas servem para indicar o melhor caminho e fazer-nos perceber que só se pode olhar em frente quando não há nada bem resolvido que tenha ficado para trás a atormentar-nos continuamente, Killers, no seu todo e como documento sonoro único é um hino à felicidade, uma porta escancarada que nos ensina a darmos a devida importância aos problemas, ao sofrimento e à dor, que estarão sempre connosco, mesmo quando a maior constância de eventos felizes seja uma realidade concreta na nossa vida. Há, no seu seio, como que uma tomada de consciência de que a existência humana não deve apenas esforçar-se por ampliar intimamente o lado negro, porque ele será sempre uma realidade, mas antes focar-se no que de melhor nos sucede e explorar até à exaustão o usufruto das benesses com que o destino nos brinda, mesmo que as relações interpessoais nem sempre aconteçam como nos argumentos dos filmes. Espero que aprecies a sugestão...

The Great Dictators - Killers

01. Holy Creatures
02. Strange Ways
03. Heathens
04. We Don’t Have Sound
05. Baby Skull Ring
06. In The Name Of The Father
07. Shame
08. Vote For Me
09. We Will Survive
10. Rockets
11. Killers


autor stipe07 às 18:51
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Sábado, 25 de Abril de 2015

The Kindling - By Morning

Guy Weir, Tomas Garcia e Ben Ramster são os The Kindling uma banda sedeada em Londres, que contou com as participações especiais dos violinos de Kelly Jakubowski e dos efeitos de Joe Leach para gravar um disco novo intitulado By Morning, um trabalho que aposta forte numa profunda melancolia proporcionada por canções que gravitam em redor de uma folk introspetiva e tipicamente nórdica, onde sobressaiem deliciosos arranjos de cordas e melodias que se arrastam sem pressa, mas com uma direção bem definida, aquela que segue diretamente e pelo caminho mais curto rumo aos nossos sentimentos mais profundos e delicados.

A apenas aparente rudeza da distorção de Television Static Dreams, o primeiro single retirado deste disco e seu maior destaque, transmite uma poderosa sensação introspetiva e sonhadora. Imersa em pequenos detalhes, dos quais sobressai a pandeireta e o tambor, que procuram conferir uma forte sensação crua e orgânica ao tema, são elementos que se repetem ao longo de um alinhamento que só poderá ser devidamente apreciado se estivermos dispostos a fazê-lo equipados com um fato hermético que nos permita captar a simultaneamente implacável e sedutora sensação de introspeção e melancolia mitológica que estes The Kindling possuem e transmitem.

O falsete e a guitarra de Guy conduzem temas como Climb In, Unlucky e Long Distance e estes são apenas alguns dos vários exemplos que, em By Morning, exaltam uma tremenda serenidade e um natural excesso de tempo, conceitos que sobressaiem nestas canções com uma clareza incomum. Este é um acordar matinal musical proposto pelos The Kindling, uma alvorada tão diferente e proporcionalmente oposta às nossas rotinas diárias e à escravatura do relógio que roda incessantemente a partir do momento em que somos forçados a deixar o mundo dos sonhos para trás e viver um dia a dia nem sempre suficientemente recompensador.

As cordas e o jogo de vozes de Hunting Stars e Slow Down tocam profundamentem o coração. Como a maioria das canções, começam com o dedilhar de uma guitarra, neste caso a acústica, mas depois vão sendo adicionados novos instrumentos, que acrescentam pequenos detalhes sonoros, mas que fazem muitas vezes toda a diferença e demonstram a abundância de talento dos mentores deste projeto, já que pintam uma belíssima paleta de cores sonoras e criam uma atmosfera envolvente, suave e apaixonada.

Alguma das nossas manhãs deviam ser assim, arrastadas por esta visão poética dos primeiros minutos dos nossos dias, em que a delicadeza e a candura vencem a agressividade e a rispidez, com as canções de By Morning a servirem de banda sonora durante o combate fraticida entre estes dois opostos. Espero que aprecies a sugestão...


autor stipe07 às 22:15
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Sexta-feira, 24 de Abril de 2015

Evols - Shelter

EVOLS

Antes do final de 2015, lá para o outono, chegará aos escaparates o tão aguardado segundo álbum dos Evols, um trabalho gravado e misturado nos últimos dois anos entre a sala de ensaios da banda e os estúdios Sá da Bandeira. Com eidção da Fnac Discos e Wasser Bassin, este disco irá marcar, de acordo com o press release de Shelter, o primeiro single divulgado, uma evolução no som da banda, que conta com um novo baterista e um novo baixista (Jorge Queijo e João Santos).

Ainda de acordo com esse documento, que explica melhor que ninguém a sonoridade que orienta este projeto, os Evols são influenciados pelas raízes do rock e do blues e por toda a cultura psicadélica que se reinventa há mais de 50 anos. Fazem música intemporal, longe dos holofotes, mas perto das pessoas onde eles gostam de estar. As composições da banda remetem habitualmente para uma viagem entre a melodia, a estridência e a distorção, numa potência e impacto de guitarras levados ao limite até ao inaudível. O tempo e a contemplação rural, as raízes da música popular americana que alternam com a histeria e o excesso do rock, sempre numa perspectiva mundana, que por vezes lembra o som de amplificadores menores ou de slotmachines, são permissas importantes no seu cardápio de influências.

Confere Shelter e o video do tema realizado pela artista plástica Laetitia Morais e mantém-te na rota deste grupo porque, de acordo com a amostra, vem aí certamente um grande disco!


autor stipe07 às 15:45
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Noel Gallagher’s High Flying Birds – Chasing Yesterday

O britânico Noel Gallagher e os High Flying Birds regressaram aos discos em março com Chasing Yesterday, atráves da Sour Mage Records, o segundo trabalho de uma banda liderada por um músico que  terá escrito algumas das páginas mais significativas do livro das escrituras da britpop, não só nos Oasis, como noutros projetos em que se envolveu também como produtor.

Responsável, portanto, por algumas das marcas identitárias do indie rock que povoa o nosso subconsciente e que forjaram parte importante da história da música dos finais do século passado, o mais velho dos irmãos Gallagher assina em Chasing Yesterday pouco mais de uma dezena de novas canções que transportam consigo muita dessa herança, mas com um espírito renovado e mais contemporâneo.

Claramente feliz com a liberdade musical ilimitada que uma carreira a solo lhe permite, já que a componente High Flying Birds do projeto é apenas um elemento acessório e que se rege cegamente pelas orientações do líder, Noel Gallagher expôe o habitual modelo de canção assente na primazia das cordas das guitarras, no que concerne ao processo de condução melódica, estando reservada à percussão um papel mais acessório e secundário. Logo nas cordas de Riverman e, mais adiante, em The Dying Of The Light, é fácil recordarmos o hino Wonderwall e In The Heat Of The Moment tem aquela toada épica e gloriosa que os Oasis tanto gostavam de explorar e que o efeito mais contemporâneo do baixo atualiza com notável precisão, ficando, nestes dois temas bastante diferentes, o cone sonoro por onde circulará o restante alinhamento, que, como se vê, tem impressa uma marca identitária única e facilmente identificável. 

Ao longo do alinhamento, se os teclados retro de The Girl With X-Ray Eyes e o seu refrão apoteótico piscam o olho a uma certa lisergia pop, acontecendo o mesmo com os metais de The Right Stuff, já o rock psicadélico sujo e empoeirado de The Mexican, a espiral emotiva da grandiosa Lock All The Doors e a batida sintética e o jogo de guitarras de Ballad Of The Mighty I, trilham a paleta de cores caraterística do percurso do autor, com While The Song Remains The Same a ser um outro bom exemplo dessa fórmula, mas com as tais roupagens mais atuais e que piscam o olho a um público mais jovem. O próprio efeito inicial da guitarra que depois se transforma, quase por magia, num riff assombroso e inebriante em You Know We Can't Go Back mostra como Gallagher tem a noção que os seus ouvintes esperam de si música que possa ser cantada sem complicações desnecessárias e que ao vivo deve surpreender e encher espaços amplos e abertos.

Chasing Yesterday é um disco elegante, impecavelmente produzido e pronto para ser cantado por multidões que irão decorar estas letras até à exaustão, pensado, idealizado e tocado, quase na íntegra, por um dos melhores compositores, cantores e guitarristas das últimas duas décadas e ao qual o indie rock britânico tanto deve. Espero que aprecies a sugestão...

Noel Gallagher's High Flying Birds - Chasing Yesterday

01. Riverman
02. In The Heat Of The Moment
03. The Girl With X-Ray Eyes
04. Lock All The Doors
05. The Dying Of The Light
06. The Right Stuff
07. While The Song Remains The Same
08. The Mexican
09. You Know We Can’t Go Back
10. Ballad Of The Mighty I
11. Do The Damage
12. Revolution Song
13. Freaky Teeth
14. In The Heat Of The Moment (Remix)
15. Leave My Guitar Alone


autor stipe07 às 15:45
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