Quinta-feira, 31 de Maio de 2012

Neutral Milk Hotel - In The Aeroplane Over The Sea

Esta manhã, ao conduzir para o trabalho, coloquei no leitor um disco que já foi editado há catorze anos, mas que poderia perfeitamente vir a sê-lo... em 2026. É um álbum a que regresso com alguma frequência no meio das novidades que descubro diariamente, sempre com a mesma sensação que estou a ouvir algo que se assemelha à génese e principal fonte de inspiração de quase tudo o que se faz hoje no cenário índie e alternativo e de grande parte dessas tais novidades mais folk e lo-fi.

A história deste disco é amplamente conhecida. Era uma vez um grupo de amigos com bandas lo-fi de estéticas relativamente parecidas, em que um tocava na banda do outro e todos estavam sob a mesma casa, a etiqueta Elephant Six. Os The Apples In Stereo, Of Montreal, Olivia Tremor Control, Essex Green eram alguns dos nomes. O músico mais inventivo e genial de todos eles era Jeff Mangum, o génio que criou os Neutral Milk Hotel e fez um disco aclamado pela crítica e pelo público e que influenciou, conforme referi no início, muito boa gente.
In The Aeroplane Over The Sea é daqueles álbuns que só fazem sentido se for ouvido de ponta a ponta. Mangum canta as letras como se falasse com um amigo, acompanhado de um instrumental fuzz-folk às vezes caótico e saturado, às vezes ameno. A sua voz nasalada enumera contos de amor, morte e surrealismo. And one day we will die, and our ashes will fly from the aeroplane over the sea, but for now we are young, let us lay in the sun, and count every beautiful thing we can see
Estão a fazer catorze anos que In The Aeroplane Over The Sea parou o mundo e ouvir este trabalho hoje, em perspectiva, mostra que todo o cenário folk dos anos 2000 em diante (Coco Rosie, Devendra Banhart e Vetiver, Animal Collective, Akron/Family, Panda Bear) coloca Mangum no mesmo altar de Bob Dylan e Vashti Bunyan, caracterizando-o ainda como o trovador moderno por excelência. Espero que aprecies a sugestão...

The King of Carrot Flowers Pt 1

The King of Carrot Flowers Pts 2 & 3

In the Aeroplane Over the Sea

Two-Headed Boy

The Fool

Holland, 1945

Communist Daughter

Oh Comely

Ghost

Untitled

Two-Headed Boy Pt. 2


autor stipe07 às 13:45
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Quarta-feira, 30 de Maio de 2012

Get Cape. Wear Cape. Fly. – Maps

Começa a ser hábito os jogos de vídeo servirem de inspiração para algumas bandas e projetos como os Games e a discografia de Owen Pallett são provas que elucidam esta tendência. Esse também é o caso de Sam Duckworth, natural de Essex, Inglaterra; Aos dezoito anos decidiu que iria viver da música e adoptou para o seu projeto o peculiar nome Get Cape. Wear Cape. Fly., retirado de um artigo da revista de jogos de vídeo ZX Spectrum. Pouco depois consegue um contrato com a Atlantic Records e em 2006 estreia-se nos discos com The Chronicles Of A Bohemian Teenager. Agora, dois discos depois dessa estreia e de uma aventura a solo, regressou com Maps, lançado no passado dia sete de maio pela Cooking Vinyl / Pias Spain.

Desde 2006 que Sam sugere-nos narrativas emocionais e tenta criar a sua própria marca de indie alegre e extrovertida, através da guitarra. Maps não deve ser levado demsiado a sério e o single The Real McCoy é para ser cantado até à exaustão como se tratasse de um dos melhores momentos da brit pop. Mas também destaco The Joy Of Stress, cuja abertura, assente num paino, demonstra a versatilidade musical deste compositor londrino e a colaboração com o MC Jhest em  The Long And Short Of It All, uma boa canção hip hop e com um refrão memorável.
Em suma, Maps é uma pequena súmula de alegre indie-pop, ideal para se ouvir quando o sol finalmente decide ir dormir. Espero que aprecies a sugestão...

 

01. The Real McCoy
02. Vital Statistics
03. Daylight Robbery
04. Call Of Duty
05. The Joy Of Stress
06. Snap
07. The Long And Short Of It All (Feat. Jehst)
08. Offline Maps
09. Easy (Complicated)
10. Home


autor stipe07 às 21:43
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Curtas... XXXVI

Quem estava habituado à folk ligeira do último álbum dos Six Organs of Admittance, Asleep on the Floodplain, de 2011, talvez se desiluda com os rumos que o músico Ben Chasny parece ter escolhido para o próximo álbum deste projeto sempre experimental. Em Waswasa, novo single da banda norte-americana, não há violas acústicas e etéreas, mas guitarras firmes, batidas secas e um jogo de sons talvez impossível de ser imaginado dentro do contexto do último álbum. A música fará parte do disco Ascent, que deve ser lançado somente em agosto.

Six Organs of Admittance, "Waswasa" by selftitledmag

Uma das bandas mais divertidas da cena californiana, os Lemonade, divulgaram duas novas canções, Neptune e Softkiss, e que farão parte do segundo álbum de estúdio da banda, Driver, que será lançado no dia vinte e nove de maio. Com batidas quentes, eróticas e um toque tropical, Neptune segue boa parte das referências testadas pelo grupo há quatro anos, quando apresentaram ao público o primeiro disco.

Ainda fazendo o mesmo uso de sintetizadores e batidas quentes, Softkiss puxa o grupo para uma sonoridade levemente melancólica e nostálgica e boa parte da canção remete-nos diretamente para os sons dos anos oitenta. Driver deverá ser um dos grandes álbuns de 2012. Quente.

 

Os California Wives são uma banda natural de Chicago que se prepara para editar o álbum de estreia depois de terem assinado recentemente pela Vagrant Records. Apesar de o álbum ainda não ter a data de saída definida, já é conhecido Marianne, o primeiro single, disponível para download gratuíto no soundcloud da etiqueta. Gostei imenso desta canção e a banda já está referenciada para uma escuta atenta do disco, logo que veja a luz do dia.

California Wives - Marianne by Vagrant Records

 

Os Kaiser Chiefs investiram fortemente no video de Listen to Your Head, lançado no passado dia vinte e seis de maio, feito para divulgar a coletânea Souvenir: The Singles 2004-2012.

O filme, dirigido por Mattias Erik Johansson, simula o trailer de um thriller de cinema, com uma super produção, um elenco considerável e perseguições de carros, por exemplo.

 

A versão deluxe de Destroyed, o mais recente disco de Moby, foi editada recentemente e traz dois discos a mais, sendo um com músicas inéditas e versões da originais do álbum e outro com cinco vídeos interativos. Uma preciosidade para os fãs, nomeadamente o single The Poison Tree, onde Moby pisa o terreno sonoro que solidificou e assegurou desde Play, em 1999.

Moby - The Poison Tree

01. The Poison Tree
02. The Poison Tree (David Lynch Remix)


autor stipe07 às 13:05
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Terça-feira, 29 de Maio de 2012

Jack White – Blunderbuss

Blunderbuss é o primeiro disco a solo de Jack White, músico de Detroit, agora a viver em Nashville, um homem que nasceu John Anthony Gillis. Este disco surge após a dissolução dos The White Stripes, um álbum nos The Raconteurs, uma incursão com Allison Mossarth, da dupla The Kills, no projeto paralelo The Dead Weather e o casamento de Jack com a modelo e cantora Karen Elson.

Proprietário da Third Man Records, foi através dessa etiqueta que lançou este álbum que tem a mão dele em praticamente todos os instrumentos que se ouvem, ou seja, como os verdadeiros génios, por estes dias Jack White já só se compromete com a sua inspiração.

Em Blunderbuss ele carrega a cruz da blues que se aprofunda das raízes do rock, mas também da folk (Love Interruption), do country (Blunderbuss), do rockabilly (I’m Shaking, cover de Rudy Toombs) e até mesmo de outras sonoridades mais orquestrais e requintadas(Hypocritical Kiss e Weep Themselves to Sleep). A extrema habilidade musical de White impressiona, não só nas guitarras, mas também no piano, instrumento que quando assume é sempre em busca de um quê de classicismo, como ficou bem patente em Trash Tongue Talker.

O disco é meticulosamente sequencial; Nas três primeiras canções assume as rédeas o rock, nas duas seguintes a folk e a country, depois baladas ao piano e nas quatro canções finais o rock dos anos cinquenta e sessenta. A última canção, Take Me With You, acaba por fazer a súmula de quase todos os elementos musicais explorados em Blunderbuss. Como a própria letra diz, essa poligamia de ritmos incrustou-se, definitivamente, na arte musical de Jack White.

Ouvir este músico acaba por ser sonoramente bastante cinematográfico, já que ele permite-nos avistar paisagens inéditas e conhecer personagens longes da vista e do que se vê. Se pensarmos que a sétima arte é um instrumento sensorial, as canções desse inquieto artista são para sentir, confundir e desorganizar tudo que já foi explicado antes, seguindo o rock cru e o embalo das suas letras. Há uma atmosfera intimista, começando pelo título do disco que remete para uma espingarda e a leveza das canções que transparecem a tranquilidade e a aparente fase despreocupada que Jack atravessa na sua vida.

Não é com Blunderbuss que o rock encontra definitivamente o seu salvador, mas talvez demonstre que Jack White é o intérprete mais habilidoso deste género musical na atualidade. Espero que aprecies a sugestão...

01. Missing Pieces
02. Sixteen Saltines
03. Freedom At 21
04. Love Interruption
05. Blunderbuss
06. Hypocritical Kiss
07. Weep Themselves To Sleep
08. I’m Shakin’
09. Trash Tongue Talker
10. Hip (Eponymous) Poor Boy
11. I Guess I Should Go to Sleep
12. On and On And On
13. Take Me with You When You Go


autor stipe07 às 13:15
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Segunda-feira, 28 de Maio de 2012

Keane - Strangeland

Depois de um hiato de quatro anos e conforme referi em Curtas... XXXI, os Keane estão de regresso aos discos com Strangeland, o sucessor de Perfect Symmetry, lançado neste mês de maio pela Island Records. E, ao contrário do que o título sugere, esta banda britânica não foi neste disco apalpar territórios sonoros estranhos e desconhecidos, mas voltar a casa e ao terreno seguro feito de baladas assentes no piano e numa voz emotiva, como se houvesse aqui o fechar de um círculo dos quatro álbuns da banda (Hopes and Fears, Under the Iron Sea, Perfect Symmetry, Strangeland) e este Strangeland terminasse onde Hopes And Fears começou.

Agora mais adultos e com graves problemas superados, finalmente os Keane parecem prontos a explorar o gigantesco talento de todos os seus membros. Tim Rice-Oxley é um dos melhores compositores atuais, com letras sublimes e significativas, que são entregues a uma interpretação impecável e sempre em evolução de Tom Chaplin. O piano continua como a grande força e grande diferencial da banda que, apesar de ter mostrado saber arriscar, também sabe utilizar como ninguém este seu grande trunfo.

As três primeiras canções do disco, que incluem o single Silenced by the Night, têm uma estrutura muito semelhante. As melodias dominadas pelo teclado de Tim Rice-Oxley são doces e inofensivas e cantadas pela voz suave e afinada de Tom Chaplin, fazem os Keane reviver finalmente os seus melhores dias. A partir daí o disco já não é tão consistente, mas Black Rain, com influências dos Radiohead, e a última e melhor canção do disco, Sea Fog, com um arranjo delicado no piano que ajuda a voz de Chaplin a brilhar, são obrigatórias e criam uma atmosfera muito bonita.

Os Keane nunca decepcionam. As suas letras falam profundamente com quem estiver disposto a ouvi-los, contam histórias lindas e fazem-nos pensar. A música desta banda é mais do que um passatempo, ela tem um significado e quem ouvir Strangeland com atenção perceberá que eles cresceram e tornaram-se numa das banda mais fiáveis e bem sucedidas a atualidade. Espero que aprecies a sugestão...

01. You Are Young
02. Silenced By The Night
03. Disconnected
04. Watch How You Go
05. Sovereign Light Cafe
06. On The Road
07. The Starting Line
08. Black Rain
09. Neon River
10. Day Will Come
11. In Your Own Time
12. Sea Fog

MySpace


autor stipe07 às 13:08
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Domingo, 27 de Maio de 2012

Man On The Moon - Programa #2

Man On The Moon - Programa #2, que foi possível ouvir na Paivense FM (99.5), hoje, entre as 0h e a 1h, com repetição na próxima quarta feira, dia trinta de maio, às 23h.

Man on the Moon - Programa 02 by stipe07


autor stipe07 às 09:53
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Sábado, 26 de Maio de 2012

The Magnetic North – Orkney: Symphony Of The Magnetic North

É das terras gélidas da Ilha de Orkney, localizada ao largo do Norte da Escócia, que vem o som dos The Magnetic North, uma banda que acabo de descobrir, com um som incrível e uma pop atmosférica vibrante. Erland Cooper, Hannah Peel e Simon Tong formam o grupo e Orkney: Symphony of the Magnetic North, lançado no passado dia sete de maio na Full Time Hobby, é o disco de estreia deste projeto.

Erland Cooper e Simon Tong são praticamente veteranos da cena musical; Ambos fazem também parte da banda Erland and the Carnival que lançou o primeiro álbum em 2010. Há alguns meses Erland resolveu voltar para Orkney e acabou por conhecer Hannah, que posteriormente apresentou a Simon. Então os três mergulharam na história, cultura e geografia da ilha e assim, inspirados por esse mergulho, compuseram todas as músicas do projeto. Uma das lendas de Orkney que parece ter sido vital para a escrita de algumas das canções, fala de uma menina chamada Betty Corrigall, que se suicidou em 1770, após ter ficado grávida de um marinheiro.
Os The Magnetic North gravaram o álbum em vários locais do arquipélago e chegaram a usar um coro de residentes, nomeadamente em Ward Hill. Misturam ótimos arranjos clássicos, feitos com samples, teclados e bateria, com vozes que parece que são cantadas junto ao nosso ouvido. Em certos momentos lembram os Beirut, nomeadamente nos tais arranjos; Porém são um pouco mais introspectivos.

A voz de Hannah é assombrosa e logo na segunda canção, em Bay Of Skall, ela deixa-nos a suspirar. Em dueto, com Cooper em Hi Life, provavelmente a melhor canção de Orkney: Symphony Of The Magnetic North, são apoiados por umas cordas arrebatadoras e cantam uma melodia linda e inquietante, que nos faz imaginar a beleza daquelas ilhas sem grande esforço.

Os The Magnetic North nunca serão uma banda de multidões, mas quem os ouvir e se deixar contagiar pela sua melancolia, será transportado rapidamente para o gélido norte da Escócia talvez acompanhado por uma xícara bem quente de chá. Espero que aprecies a sugestão...

ouvir

01. Stromness
02. Bay Of Skaill
03. Hi Life
04. Betty Corrigall
05. Warbeth
06. Rackwick
07. Old Man Of Hoy
08. Nethertons Teeth
09. Ward Hill
10. The Black Craig
11. Orphir
12. Yesnaby


autor stipe07 às 15:10
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Sexta-feira, 25 de Maio de 2012

Sleep Party People – We Were Drifting On A Sad Song

Os Sleep Party People são um projeto dinamarquês encabeçado e idealizado pelo músico, compositor e multi-instrumentista Brian Batz, natural de Copenhaga. We Were Drifting On A Sad Song é o quarto EP do grupo e foi lançado no passado dia nove de abril.

Os Sleep Party People fazem uma dream pop de forte cariz eletrónico a que não será alheio o facto de terem andado ultimamente em digressão com os The Antlers e os Efterklang. No entanto, existe alguma diversidade, até porque as orquestrações e  o conteúdo melódico fazem lembrar muito os canadianos Arcade Fire. Chin, a canção de abertura do álbum e o seu maior destaque, localiza-se entre o sono e o estado de consciência, ou seja, transporta-nos até aquele limbo matinal (ou não), sendo já uma das canções mais ouvidas na blogosfera.

A voz de Batz olha para o interior da alma, incita os nossos desejos mais profundos, como se cavasse e alfinetasse um sentimento em nós, com melodias arrastadas e densas e onde a letra é secundária, como um complemento da angústia. A melancolia continua nas notas do piano, mas o violino, a bateria e os sintetizadores também deixam a sua marca, em canções que parecem feitas para aquele momento em que se dorme e se está acordado.

We Were Drifting On A Sad Song serve como uma revolução extremista. Equilibra os sons com as sensações típicas de um sono calmo com a natural euforia subjacente ao caos, muitas vezes apenas visível numa cavidade anteriormente desabitada e irrevogavelmente desconhecida do nosso ser. Espero que aprecies a sugestão...

01. A Dark God Heart
02. Chin
03. We Were Drifting On A Sad Song
04. Melancholic Fog
05. Heavy Burden
06. Gazing At The Moon
07. Heaven Is Above Us
08. Things Will Disappear Like Tears In The Rain
09. The City Light Died

MySpace


autor stipe07 às 13:21
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Quinta-feira, 24 de Maio de 2012

Sigur Rós - Valtari

Jónsi Birgisson, Georg Hólm, Kjartan Sveinsson e Orri Páll Dýrason são provavelmente os maiores responsáveis por toda uma geração de ouvintes se ter aproximado da música erudita ou de quaisquer outras formas de experimentação e estranhos diálogos que possam existir dentro do campo musical. Ao lado da conterrânea Björk, este quarteto chamado Sigur Rós não apenas colocou a Islândia no mapa dos grandes expoentes musicais, como definiu de vez o famigerado pós rock, género que mesmo não sendo de autoria da banda só alcançou o estatuto e a celebração de hoje graças ao rico cardápio instrumental que o grupo conseguiu alicerçar nas quase duas décadas que já leva de existência.

Adeptos da constante transformação de suas obras, desde Von, o primeiro álbum, que os Sigur Rós se concentram na produção de discos que, mesmo próximos, organizam-se e funcionam de maneiras diferentes.  Têm sido álbuns que acabam sempre por partilhar um novo sentimento ou proposta, utilizando uma fórmula básica que serve de combustível a cada nova estreia. Entretanto, mesmo movidos pelas diferenças, nenhum disco apresentado pelo grupo até hoje soa tão distinto e particular quanto Valtari, o sexto trabalho de estúdio do quarteto, um álbum que se fecha dentro de um campo próprio, nada místico ou imerso no mesmo plano gracioso que antes abastecia a carreira da banda.

Valtari talvez seja o mais introspectivo e difícil disco do grupo até hoje. Não há qualquer forma de abertura ou canções capazes de conversar com o grande público aos moldes de Glósóli, Hoppípolla e Svefn-g-englar, alguns dos maiores tratados comerciais da banda. Tudo o que se ouve no interior desta obra de oito canções ecoa de forma suja, distante da subtileza angelical que se manifestava nos discos anteriores. Se, por exemplo, no anterior Með suð í eyrum við spilum endalaust, de 2008, a banda parecia motiva a lançar uma série de músicas festivas e grandiosas, hoje a necessidade é completamente outra. Tudo flui de maneira hermética e acizentada, quase um oposto dos Sigur Rós de outras épocas.

Quem também esperava por um álbum com uma sonoridade coincidente com aquilo que Jónsi e o parceiro Alex Somers vinham a desenvolver em relação à carreira solo do vocalista dos Sigur Rós, provavelmente irá sentir-se defraudado ao mergulhar nos obscuros 54:25 minutos de Valtari. Se antes Jónsi era a figura central dentro do projeto, agora a sua voz é apenas um mero plano de fundo no decorrer da obra, já que boa parte das canções abandonam a voz como ponto de destaque para que a banda possa se concentrar na instrumentação. E como o destaque maior está na música e não na voz, Valtari é um álbum com nuances variadas e harmonias magistrais, onde tudo se orienta de forma controlada, como se todos os instrumentos fossem agrupados num bloco único de som.

Se até Með suð í eyrum við spilum endalaust, os Sigur Rós pareciam interessados em realizar um som totalmente bucólico, épico e melancólico, que servia de banda sonora para um mundo paralelo cheio de seres fantásticos e criaturas sobrenaturais, Valtari projeta um som acizentado e urbano, mais terra a terra, digamos assim. Entre canções como Ekki Múkk e Fjögur Píanó, talvez a composição que mais se assemelhe aos antigos trabalhos da banda seja Varðeldur, canção que mesmo ligada ao passado recente da banda, apega-se intencionalmente ao que os islandeses produzem hoje.

A própria tal melancolia que sempre esteve presente nas canções da banda, foi remodelada com uma dose extra de amargura e desesperança se apoderasse das faixas e do espírito que sempre acompanhou a banda. com tudo isto, não se pense que Valtari é um trabalho difícil, ou que se afasta completamente das bases e referências iniciais dos Sigur Rós. O disco parece apenas encaminhar a banda para um novo universo, como se o quarteto resolvesse abandonar um caminho seguro e luminoso que percorreu até aqui, para enveredar por outro percurso mais obscuro e terreno. Acompanhar ou não o grupo neste novo trajeto é uma decisão que apenas o ouvinte pode decidir; Mas, quem, como eu, deixar-se embuir deste novo espírito, certamente não se irá decepcionar.

Pessoalmente, depois de uma espera de quatro anos, estava realmente à espera de algo novo e diferente. Por isso, Valtari acertou em cheio nas minhas expetativas e fez-me aumentar ainda mais a devoção que sinto por esta banda que já faz parte do meu ADN e é uma das referências fundamentais da minha existência. Espero que aprecies a sugestão...

01. Ég Anda
02. Ekki Múkk
03. Varúð
04. Rembihnútur
05. Dauðalogn
06. Varðeldur
07. Valtari
08. Fjögur Pianó


autor stipe07 às 13:30
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Quarta-feira, 23 de Maio de 2012

The Wave Pictures - Long Black Cars

Conforme referi em Curtas... XXVII, o trio londrino The Wave Pictures formado por David Tattersall, Franic Rozycki e Johnny 'Huddersfield' Helm, lançou no passado dia doze de Abril Long Black Cars, pela Moshi Moshi Records, disco sucessor do Beer In The Breakers de 2011. O disco foi gravado em Nova Iorque em apenas quatro dias e a produção esteve a cabo da própria banda. A temática das canções varia entre temas tão díspares como Humphrey Bogart e, imagine-se, a suposta brutalidade policial em algumas situações.

O baterista canta pela primeira vez numa música da banda em Eskimo Kiss, o primeiro single já lançado do álbum e um dos maiores destaques do mesmo. É uma canção bastante enigmática e sombria com uma letra misteriosa, mas que fala de pequenos detalhes existenciais que poderiam fazer parte do dia a dia de qualquer um de nós e que, de acordo com a banda, são aqueles que tornam as nossas vidas excitantes e lhe dão sentido. O próprio disco soa a algo que parece ter sido gravado num pequeno estúdio caseiro, com um ambiente bastante intimista e Tattersall, nas canções, escreve imensas vezes na primeira pessoa e referindo-se certamente a ele próprio. Mas o que mais impressiona na sua escrita é o detalhe com que pinta determinados cenários que quase conseguimos visualizar na perfeição:  A pirate on a pirate ship throws confetti to the wind, Wasps fly drunkenly into the overflowing bins. A six-foot yellow van, a hot air balloon. The whole town came down to see it all this afternoon. Sunlight bounces off the window, blinks into my eye. You promised me you'd give it the old college try. And the long black cars roll by.

Em suma, Long Black Cars é a materialização do desempenho apaixonado de um trio de músicos com uma sonoridade muito caseira e bastante intimista. O disco tem momentos impressionantes e uma pop alegre que  poderá parecer um pouco antiquada e vintage, mas, como acontece hoje com a moda, está mais atual que nunca. Não há grandes floreados nem limites sonoros demasiado expostos, a sonoridade é direta, básica, descontraída e, pelo que percebi, o culto já está implementado na esfera alternativa mais atenta. E às vezes são os prazeres mais simples, aqueles que melhor nos recompensam. Espero que aprecies a sugestão...

01. Stay Here And Take Care Of The Chickens
02. Eskimo Kiss
03. Never Go Home Again
04. My Head Gets Screwed On Tighter Every Year
05. Cut Them Down In The Passes
06. Hoops
07. Spaghetti
08. Give Me A Second Chance
09. The West Country
10. Come Home Tessa Buckman
11. Seagulls
12. Long Black Cars


autor stipe07 às 12:56
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